Monte das Tabocas

Prefeitura da Vitória de Santo Antão

BATALHA DO MONTE DAS TABOCAS. NATIVISMO E SENTIMENTO DE PÁTRIA

Mais um pequeno tex­to extraído de um impor­tante documento histórico, “História da Guerra de Per­nambuco”, escrito por Dio­go Lopes Santiago, cronis­ta português que viveu em Pernambuco, por ocasião da batalha do Monte das Tabocas:

“O alto Monte que cha­mam de Tabocas, tão afa­mado no tempo presente, como o será no futuro, pela milagrosa vitória alcançada nele, está no sertão e dista do Recife nove léguas para o poente por cuja parte o rega um rio, chamado Ta- picurá”.

Chegaram os soldados, que uns eram da Bahia, ou­tros da terra, os mais prá­ticos naquelas paragens, que o sargento-maior havia mandado buscar o sítio, di­zendo que o tinham acha­do conforme se havia mis­ter, que era um monte alto e empinado, que estava lé­gua e meia de distancia de uma ermida de Santo An­tão para baixo, para a parte do sul, donde está um ta­bocal, quero dizer canavial de canas bravas, que o sar­gento-maior tinha bom co­nhecimento por haver esta­do nele, quando em outro tempo andava com sua tro­pa em campanha, e dizen­do ao governador João Fer­nandes Vieira ser o melhor sítio” (observação: o sar­gento-maior era Antonio Dias Cardoso).

Assumiu a liderança da resistência pernambucana o senhor de engenho, João Fernandes Vieira, aclama­do “governador da liberda­de,” por seus companheiros de luta. Após alguns reve­zes impostos aos invasores, João Fernandes Vieira tor- nou-se o alvo principal dos holandeses que queriam prendê-lo a todo o custo.

Para escapar dos inimi­gos, João Fernandes Vieira, escondia-se no interior, mu­dando sempre de endereço.

 

Em junho de 1645 os holandeses armaram-se e saíram em perseguição ao chefe das nossas tropas. Partindo do Recife, eles in­gressaram por São Louren­ço da Mata, em busca de João Fernandes Vieira, que procurou fugir do inimigo.

Retirando-se mais para o in­terior nossas tropas chega­ram ao Monte das Tabocas, assim chamado, por haver em suas encostas imenso tabocal.

 

Escondido no Monte com seus soldados e refor­çado pelos índios aliados, João Fernandes Vieira, au­xiliado pelo sargento-mor Dias Cardoso, experiente em guerrilhas de embosca­das, traçou um inteligente e perfeito plano de comba­te para enfrentar aos holan­deses.

Na manhã de três de agosto as sentinelas brasi­leiras anunciaram a aproxi­mação das tropas holande­sas que vinham com toda fúria, tendo à frente uma multidão de índios. Viei­ra reuniu seus soldados e a eles se dirigiu com tom re­soluto proferindo fortes pa­lavras: “a sorte da nossa causa depende deste pri­meiro combate”. A causa, era a libertação de Pernam­buco.

Uma hora da tarde do dia 3 de agosto de 1645, ocorreu a grande batalha. Os luso-brasileiros, usan­do a tática de emboscadas, atacavam e se afastavam, fugiam e investiam, atrain­do e empurrando os invaso­res para dentro do tabocal. Resistindo e ludibriando os holandeses, nossos bravos soldados combateram fe­rozmente. Em um segun­do momento eles conse­guiram transpor o tabocal e marcharam em direção ao alto do monte, onde esta­va a força reserva de João Fernandes Vieira. Feroz­mente nossa tropa caiu so­bre o inimigo e após fortes combates, que duraram até ao anoitecer, nossos solda­dos conseguiram derrotar os holandeses que aprovei­taram a escuridão da noite e fugiram apavorados sob torrencial chuva.

Narra a tradição, que durante os fortes comba­tes, surgiram uma senhora com uma criança no braço, tendo ao lado um ancião barbudo com um cajado e eles além de alento, forne­ciam armas aos nossos bra­vos soldados. De acordo com a crença popular, se­riam, Nossa Senhora com o Menino Jesus e Santo An­tão. Essa mística narrativa, que só a fé explica, justifica a frase: “Em Tabocas, o céu e a terra uniram-se para gerar o Brasil”

No outro dia ao ama­nhecer, vendo que o inimi­go havia realmente fugido, nossos bravos heróis, de joe­lhos, agradeceram a Deus e à Virgem de Nazaré, e grita­ram três vezes em alta voz: “Viva a fé de Cristo e a li­berdade. Vitória, vitória, vi­tória”. E logo, o grande che­fe, João Fernandes Vieira, com o chapéu na mão, foi abraçando a todos os capi­tães e soldados, agradecen­do-lhes e louvando-lhes o es­forço e a coragem.

 

Nosso pequeno exérci­to em formação, constituí­do de homens descalços, sem armamentos adequa­dos, lutando com amor, de peito aberto, bateu as bem treinadas e bem armadas tropas holandesas.

A batalha do Monte das Tabocas, foi um marco na campanha da insurreição pernambucana. “Sem Tabo­cas, não haveria Guarara­pes”. Em Tabocas, germinou em nossa gente, o senti­mento nativista e de pátria. Ali, originou-se o embrião do exército brasileiro.